segunda-feira, 15 de agosto de 2011


Quero lhe contar uma história. Antes, Picasso diz uma vez a seguinte frase: "a arte é uma mentira que nos faz perceber a verdade". Em outra frase, ele diz: "a arte é perigosa; sim, ela nunca pode ser casta; se é casta, não é arte". Paul Simon, em 1964, escreve sobre uma visão. "Pessoas conversando sem falar, pessoas ouvindo sem escutar. Pessoas escrevendo canções que jamais compartilham. Ninguém ousou perturbar o som do silêncio." E uma última coisa: não espera nada desta história, não cobre dela coisa alguma.
A história é de um homem que se olha no espelho e nada vê. Todos falam com ele normalmente, ele sabe qual é o seu nome, porém sua localização espacial é uma vaga noção. Ele também não entende como seu corpo funciona. Ele pensa em caminhar e anda, ele espirra, pisca, coça a orelha. Mecanicamente, ele executa as funções básicas para viver. Porém, falar para ele é um verdadeiro desafio. Não que ele não saiba expressar as palavras, organizá-las e fazer ser entendido. É que as palavras que ele usa não são dele. Esse é o seu verdadeiro problema. Nada é dele. O corpo, que estranhamente ele se veste, é uma carne com ossos emprestada e que a cada dia morre um pouco. Seus ouvidos, ultimamente estão calejados de tantas palavras que não lhe interessam, tantos comandos que não fazem sentido algum. Em troca, ele devolve sorrisos amarelos, comentários monossílabos, respostas efusivas. Feições e palavras que também não são dele. Há um tempo atrás, ele sentiu que o contrato estava por terminar. Mas como um assunto que é sufocado por outro, este pensamento foi jogado em algum abismo do subconsciente, que até hoje paira, podendo retornar em algum momento.
Assim como ele, conhece inúmeros. Porém, a diferença entre eles é que ele enxerga o que ele não é. Todos os outros, juntam-se, formando uma multidão turbulenta. Eles conversam, riem, e se iludem. Aliás, a ilusão é o combustível que move aquela massa. "Gritem, iludam-se! Sofrer não faz sentido, há um caminho mais fácil. Venha, experimente isto". E ao redor desta multidão, letreiros piscam alucinadamente, palhaços saem de todos os cantos esguichando água de flores coladas em suas roupas. E ele, como pensa não ter outra escolha, junta-se a esse povo. No fim das contas, todos, mas sem exceção, acabam caminho junto com essa massa.
Um pouco cansando, ele se afasta e procura água. Um pouco a sua frente, há um grande estacionamento com poucos carros. É estranho, mas toda vez ele passa por esse lugar, ele tem a impressão que um trapézio suspenso no ar aparecerá e que o levará a algum lugar. Ir embora, aliás, é o que ele tem feito de mais digno ultimamente. Nada para ele era mais belo do que livrar-se. Porém, com o tempo ele descobriu que ir embora também era outra ilusão, outro empréstimo que ele fazia sem perceber.
Mesmo assim, três coisas ele sabia que tinha propriedade. Paradoxalmente, sua maior propriedade eram as mais fluidas e abstratas: o espírito, o tempo e amor. Com elas, ele poderia transformar todas as outras, desde encontrar o seu rosto e corpo até ajudar as outras pessoas. Três são interligados e dependentes, são vitais e têm vida própria. É o fogo, que é está vivo para consumir o que existe, para transformar e emitir calor. E é esta chama que o mantém ligado com este corpo, com este mundo.

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