
No meio do caminho que ele vem percorrendo há dias, há uma bifurcação. Ambas as direções o levarão a caminhos totalmente desconhecidos. A única familiariadade que conhece é estar entre estes dois extremos, nunca escolhendo nenhum dos dois. Porém, a bifurcação está ali. E ele, parado, tenta entender o que está acontecendo.
O que ele não percebe é que atrás dele uma multidão segue em procissão em sua direção. Cada um deles tentará involuntariamente levá-lo para um dos dois caminhos, este é o curso da vida. Todos gostam de estar acompanhados. Enquanto a multidão se aproxima, um turbilhão de pensamentos atritam-se em um ringue.
Em frente a bifurcação, estão ele, pensamentos conflitantes e uma multidão solitária. A vida cumpre o seu papel: continuar. Diariamente, plantas nascem e morrem; cães passeiam pelas ruas, folhas são levadas pelo vento, carros transitam. A poeira é transportada de um chão para outro, novos inquilinos ocupam a casa da frente. De cada desdobramento, um novo origami é feito. A música repete-se nos players e mentes: palavras familiares, algo subliminar no ritmo. Ashes to ashes. O som preenche o ambiente enquanto as espirais envolvem o corpo, que flutua entorpecido.
O chão lentamente torna-se macio e ele sente que parte disto envolve seus pés. É agradável porém assustador. A massa que o envolve agora até a cintura é quente e o que ele mais gostaria era sentir medo neste momento. Porém, aquela massa já era parte dele e estavam prestes tornarem-se um mistério maior. Ele pensa sobre as dimensões sobre o sagrado e no que ele estava prestes a submergir. Com um ar de superioridade típica dos decandentes, ele afirma para si que suas novas formas de pensar são mais verdadeiras que os manuais de tabus que ele teve que decorar.
Tocando um céu feito de lona de circo branca, as pontas pretas de seus dedos mancham aquele pedaço de universo pessoal, criando pequenos asteróides grudados no tecido. Ele, vestido do branco da cor daquele céu, sorri com os lábios negros, assim como a ponta de seu nariz e o contorno dos seus olhos. Linhas ascendentes saem da ponta de seus olhos e do seu sorriso. Ele continua a flutuar e a criar.
A bifurcação não existe, a estrada segue reta. As pessoas passam, inexpressivas, rente a ele.
- Venha, clown monocromático, vamos dar uma volta na cidade. Já te disse que gostei do seu chapéu?
06.07.11
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